“Quem conta um conto aumenta um ponto…”

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Já no fim da Primeira Guerra Mundial, Walter Benjamim, filósofo alemão, estava inquieto com a ideia de progresso que assolava a Europa, carregada fortemente da consigna de que o passado não ensina nada para o futuro e, portanto pode-se prescindir das tradições. Observava o extermínio físico e simbólico das comunidades camponesas, que colocava em risco a memória e a tradição renovadas mediante histórias orais, contadas de geração para geração. Observava que a arte de narrar corria um grande risco de desaparecer, com o nascimento da sociedade contemporânea.

Para Benjamim a história da humanidade foi e sempre será marcada pelo caráter trágico. É o narrar que ajuda a dar sentido e significado ao trágico. Uma mesma história pode ser contada por diferentes vieses e, portanto, interpretada de formas diversas, inúmeras vezes. A narração é uma experiência compartilhada que auxilia a atribuir sentido aos fatos da vida. Já a memória encontra-se essencialmente ligada ao grupo.

Deve ser compreendida como uma busca de identidade. A memória estabelece a relação entre a história individual e a história do grupo. Qual é o espaço no nosso mundo atual para as tradições e a memória? O que diria Benjamin da revolução tecnológica que vivemos nessas últimas três décadas? Desse mundo extremamente veloz, exigente de resultados e eficiência, avesso às frustrações?

Seria a escola um dos poucos locais de manutenção e memoração dos legados culturais da humanidade? O ambiente para se decantar, elaborar o que se foi vivido? Quem sabe assim o lugar legítimo (talvez um dos únicos) de transformação das experiências em narrativas, auxiliando as crianças e os jovens a darem sentido às suas vivências, para que de algum modo, possam se localizar e se constituir como indivíduos na complexidade do seu tempo

Em cada etapa de nossa vida a complexidade do narrar é de uma ordem diferente. Quando as crianças são pequenas, dependem quase que exclusivamente do auxilio dos adultos para nomear e compreender seus sentimentos e emoções. São os adultos também quem irão selecionar as histórias a serem contadas para os pequenos ouvintes. Que infância desejamos preservar e quais experiências queremos proporcionar às crianças? Como temos cuidado do tempo que passamos junto com os pequenos? Nós adultos modernos, hiperativos, com pouco tempo disponível, conseguimos abrir um espaço em nossas atribuladas agendas para sentarmos com as crianças e lhes contarmos alguma história, como faziam nossas mães e avós? Muitos pais se queixam da agitação dos filhos, principalmente perto da hora dormir. Para algumas famílias a hora de por as crianças na cama é um verdadeiro tormento. Relatam que na medida em que a noite chega, ao invés de irem se acalmando, relaxando para poder dormir, as crianças ficam agitadas, manhosas e cheias de demandas. Quando inquiridos sobre se tinham o hábito de contar histórias para as crianças, nesses momentos, muitos disseram que não, pois achavam que seus rebentos não iriam ter a menor paciência para ouvir qualquer tipo de história.

As histórias narradas, sejam elas de que ordem for, são sempre alimentos para nossa alma, funcionam quase que como uma voz ancestral que nos acalanta e nos acalma. Saber que num tempo longínquo houve alguém que viveu temores e sentimentos próximos aos que carregamos conosco pode servir de conforto para nossas angústias e tristezas. Escutar fábulas e contos onde o mal é vingado e as dores da personagem sofredora são extintas ao final, pode nos ajudar a criar parâmetros morais e ter esperança e fé na vida.

Ouvir uma boa história, contada por um entusiasmado narrador, pode ser uma experiência fascinante tanto para as crianças quanto para adultos. Observamos, por exemplo, em nossa prática como coordenadoras de grupos de estudo de educadores, que muitas das questões teóricas, às vezes, extremamente indigestas e de difícil compreensão, adquirem uma ordem, uma clareza e por que não uma autoria, quando alinhavadas na literatura e nos causos relatados.

As histórias nos ajudam a sonhar acordado, a alimentar nossa imaginação, a construir o novo sabendo que houve um ontem, a dar significação e nomear nossas emoções e a não nos sentirmos tão solitários na caminhada da vida. Como disse Olgária Matos numa entrevista para Revista brasileira de Psicanálise (maio de 2013) …”o remédio está para o corpo como a palavra está para a alma. “

Maria Cristina Mantovanini e Patrícia Torralba Horta.

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